Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Sobre paraísos perdidos

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 20.10.09

 

Revi recentemente Lost Horizon de Frank Capra e se é possível ficar-se ainda mais fascinado numa segunda vez do que à primeira, foi o que me sucedeu com este filme.

A cópia estava restaurada, como li no genérico final, e isso facilita muito, claro está.

Há uma frescura neste filme: na fotografia, na montagem e nalgumas cenas. Conseguimos datá-lo essencialmente pelos cenários com um design muito anos 30 e pelas fatiotas que, aliás, são magníficas.

É na narrativa e na montagem que o filme se destaca, a meu ver: na primeira vez que o vi resisti um pouco ao atrevimento da montagem de alguns diálogos em que a imagem é simplesmente congelada enquanto a personagem continua a falar.

 

O tema é mesmo Capra, o realizador idealista, das grandes causas, dos temas elevados, que envolvem a vida social das comunidades. Aqui numa perspectiva mais filosófica e avançada, colocando o paraíso utópico ao alcance da humanidade. De certo modo, em todos os seus filmes a utopia está presente, implícita pelo menos, no idealismo dos seus heróis.

Se nos outros filmes os heróis conseguem melhorar um pouco as suas comunidades (bem, em It's a Wonderful Lifeessa mudança é mesmo radical), aqui o herói descobre o paraíso que está ali ao seu dispor, que pode habitar e nele permanecer até ao final dos seus dias.

E tudo acontece num momento inesperado, sem a vontade prévia das personagens que surgem, ou antes caem do céu (literalmente, o avião despenha-se) nesse lugar protegido entre as montanhas do Tibete: Shangri-La.

O diplomata pacifista, Robert Conway, o nosso herói, identifica-se quase de imediato com o lugar onde não há doenças ou guerras. Identifica-se com a sua filosofia e organização social. Ah,  entretanto apaixona-se pela rapariga. Mas isso é depois do fascínio pelo próprio lugar.

 

De todas as personagens, a mais realista é, a meu ver, George Conway, o irmão do nosso herói, o que procura por todos os meios sair daquele lugar perdido nas montanhas. É a personagem mais à escala humana, digamos assim, mais verosímil.

Tudo fará para voltar para o conhecido, a civilização. E mesmo o facto de ter encontrado uma rapariga amável e carinhosa que o tenta convencer a ficar, nada o fará desistir.

As restantes personagens vão-se adaptando naturalmente ao lugar, depois da estranheza inicial. Encontram um objectivo, um como educador, outro como construtor.

 

As minhas cenas preferidas:

- naqueles cenários de design hollywood-anos 30, com canteiros muito arrumadinhos, tudo muito florido, aparece a rapariga a cavalo e o nosso herói resolve persegui-la a cavalo também. A paisagem é toda ela organizada e a natureza acolhedora, como se o clima fosse sempre assim afável e temperado, o paraíso de facto. A rapariga resolve ir nadar no lago, tal como terá sido nos paraísos originais, antes do voyeurismo civilizacional. O nosso herói é um gentleman e apenas a observa de longe. Por fim, compõe um boneco com a roupa da rapariga e afasta-se.

- o diálogo com o High Lama deste Shangri-La que o nosso herói descobre ser o francês que chegara ali há cerca de duzentos anos. O chefe espiritual daquela comunidade, o homem que depois da viagem pelas montanhas ainda tivera de amputar uma perna, e que se dedicara àquele lugar e à sua comunidade. Toda esta situação e a descoberta da idade incrível daquele homem, sentado à sua frente com um sorriso constante no rosto, seria suficiente para aterrorizar qualquer um, mas não o nosso herói. Aquela figura frágil diz-lhe mesmo que estava à sua espera para dar continuidade ao seu trabalho e o nosso herói não se deixa assustar com a ideia, embora não se sinta propriamente à altura. E quando descreve este encontro e este diálogo (resumido) aos colegas de aventuras, é com um rosto emocionado e inspirado.

- a incrível aventura da tentativa de regresso à civilização, por insistência de George, o irmão do nosso herói, em que acabam por levar a rapariga amável e carinhosa. A decisão da partida é mesmo dramática. O nosso herói sente-se dividido e se decide partir será apenas para salvar o irmão. Avisa-o, no entanto, da situação da rapariga, cuja idade não é a que aparenta naquele lugar onde se pode chegar a centenário com a maior das facilidades, mas que dali saindo passará à condição de mortal com prazo limitado de vida. A própria rapariga quer arriscar, também ela avessa a um paraíso programado à medida dos utópicos. Reparem na fotografia, nessas montanhas agrestes, na luta pela sobrevivência, quase parece cinema mudo, na mímica dos corpos e tudo. E reparem no horror de George ao ver a rapariga envelhecer de repente. A verdade é demasiado horrível para o rapaz que se despenha num precipício.

 

Bem, como os paraísos perdidos não são para todos, e eu arriscaria mesmo a dizer que não são à escala humana mas à medida das personagens ou dos visionários, o nosso herói irá tentar até à última voltar àquele lugar. E consegue-o, tudo indica que sim. Pode chegar lá em péssimo estado, mas chega.

 

Aqui não vemos o confronto do herói com uma sociedade cínica e hipócrita, como em Mr. Smith Goes to Washington (que também revi recentemente) ou em Mr. Deeds Goes to Town; nem com as suas próprias frustações e sonhos adiados, como em It's a Wonderful Life; nem mesmo um herói a ser transportado do anonimato ao poder por uma sociedade-espectáculo, como em Meet John Doe; e também não estamos num mundo hostil em que as pessoas se esfalfam para sobreviver, mas em que pode surgir a amabilidade e generosidade mais genuínas, como em It Happened One Night.

Aqui tudo é filosófico e poético, amável e harmonioso, afável e acolhedor. Mas porque é que este paraíso não nos deixa tentados, curiosos? Dá que pensar...

Em todas as histórias de paraísos, porque é que os homens os abandonam ou são expulsos? Ou simplesmente sonham com eles, antecipam-nos, mas nunca os descobrem...? Dá que pensar...O que me levou a questionar: serão as utopias habitáveis?

É que, tal como George, também eu quereria regressar ao mundo imperfeito da vida mortal com prazo limitado, ao mundo imperfeito do cinismo e hipocrisia, das paixões e erros... mas onde também mora o imprevisto e o acidental... e onde às vezes, onde menos se espera, se descobre a pura magia de um gesto genuíno.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:43


7 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 27.10.2009 às 18:53

Este era um dos filmes favoritos de Henry Miller, senão mesmo o melhor de todos os tempos. Há um texto fabuloso dele sobre o filme que vale bem a pena ler. Se não estou em erro julgo que foi um filme incompleto e, na altura, um grande fiasco comercial.

Bolas! Vi o “Lost Horizon” aí talvez com uns 25 anos e que grande desilusão na altura.
Embora adore o Frank Capra este sem dúvida nunca ficou como uns dos meus favoritos.

Há filmes que admiramos quando temos 20 anos, outros aos 30 anos e quando entramos na casa dos quarentas admiramos outro tipo de cinema.
Alguns, obviamente, ficam para toda a vida…mas são poucos.

Mas ainda hoje sinto que fui um pouco injusto com este “Lost Horizon”. Há coisas em certos filmes que só “vemos” mais tarde…passados 20 ou 25 anos.

Mas gostei imenso deste post. Obrigado por me relembrar esta velha glória.

PS – só uma curiosidade. Já viu o “Our Daily Bread” do King Vidor? (É um filme apaixonante!)

D. Costa

Imagem de perfil

De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 28.10.2009 às 20:49

D. Costa

Foi uma surpresa este seu amável comentário ao "Lost Horizon". Obrigada.

Sim, tem toda a razão. Há filmes que admiramos aos 20, outros aos 30 e outros ainda aos 40.
E há coisas que só vemos muito mais tarde.

Gostei muito de saber que este filme era um dos preferidos de Henry Miller. Gostava imenso de ler esse texto.

Quanto ao "Our Daily Bread" de King Vidor, nunca vi. Obrigada pela sugestão.
Ana
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.10.2009 às 14:01

Ana

Por sua causa (ou “pela causa”) fui lá aos fundos da biblioteca tentar encontrar o dito texto, mas nada. Simplesmente não estava no livro onde eu julgava estar. Mas fica a promessa de continuar a busca.

Referi-me ao filme do King Vidor a pensar na questão da “utopia” falada no seu post. “Our Daily Bread” é uma obra esquecida hoje em dia e que discute bem o problema da utopia.
As três formas de utopia: individual (o bem-estar pessoal, a serenidade e paz de espírito), egoísta e dualista (os valores da amizade e da paixão) e colectivista (“humanizar” a natureza humana).
Mas qual delas será a melhor? E a que preço cada uma?

Um dia, com mais vagar e alguma inspiração, comento aqui esse filme e esses assuntos na perspectiva de Vidor. Será um comentário talvez um pouco esquizofrénico (nestas coisas nunca mais me calo…) mas também servirá para umas boas gargalhadas!

PS – Já agora se tiver ocasião não perca o “The Crowd” do mesmo King Vidor. Um filme de um humanismo avassalador. Adorava ler aqui um post sobre essa obra.

Diogo Costa
Imagem de perfil

De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 29.10.2009 às 16:55

Diogo
Obrigada uma vez mais pela sua amabilidade. Cá fico à espera do texto de Henry Miller. Lembro-me vagamente de ter visto um documentário magnífico sobre um lugar belíssimo nas montanhas, qualquer coisa "Big Sur", por onde terão passado vários escritores. Não há um livro dele sobre esse lugar? Será nesse livro? Ou estarei a fazer confusão com outro escritor?

Gostei muito desta sua distinção de várias formas da utopia e da ideia "do preço de cada uma". Cá fico também à espera do seu comentário sobre o "Our Daily Bread" de King Vidor.

Quanto ao "The Crowd", também de King Vidor, não me recordo de o ter visto. Se entretanto o vir, coloco-o aqui a navegar neste rio...
Ana
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 29.10.2009 às 22:11

Ana

Não tem que agradecer-me, gosto deste blogue. É sossegado e fala-se de cinema.

Sim, Miller reformou-se e foi para lá viver (Big Sur). Fartava-se de escrever cartas e a correspondência dele é alucinante e maravilhosa: ideias, projectos, livros, situações absurdas, delírios e coisas do género. Um tipo meio louco na realidade.
O artigo em que faz referência ao Capra devia estar no “Olho Cosmológico”. Devia, mas não está. Ou não o encontro lá.
Adorava cinema, mas mais de metade dos seus filmes preferidos são coisas completamente desconhecidas no nosso tempo.

Os filmes do King Vidor deram na RTP-2, no cineclube, (what else?!). Naquelas sessões únicas de cinema clássico. Bons tempos…
Ainda guardo dezenas dessas relíquias (entre eles “Touchez Pas Au Grisbi” com um Jean Gabin no seu melhor! uma pérola do cinema).

Mas já agora diga-me uma coisa, para quando um post aqui sobre os seguintes filmes?:
The Best Years of Our Lives
My Fair Lady
A Place in The Sun
The Ghost and Mrs. Muir

Tão pouco se fala destes filmes hoje em dia e todos eles são excelentes!
Keep up the good work!

Diogo

Imagem de perfil

De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 29.10.2009 às 23:30

Diogo
Então está combinado. Um dia destes dedico um post a: "My Fair Lady"; "A Place in the Sun" e "The Ghost and Mrs. Muir".

Entretanto, já dediquei aqui um post ao "The Best Years of Our Lives" a 27 de Novembro de 2007. Mas
peguei no filme pelo tema e passei ao lado da análise cinematográfica propriamente dita: a fotografia, a montagem, os diálogos, a música, em que é perfeito, simplesmente perfeito. Um dos meus preferidos de sempre.
Também do William Wyler, outro dos meus preferidos, "The Little Foxes", num post de Julho de 2008.
Talvez volte a estes dois filmes pelo lado da técnica cinematográfica, que neles é verdadeiramente sublime.
Ana
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 30.10.2009 às 16:16

Ana

Vou ler esse post e comentar alguns aspectos desse filme magnífico.
O mais curioso é cada pessoa analisar um filme com perspectivas muito diferentes. Embora possa haver uma fascinação comum e profunda pelo mesmo filme raramente são coincidentes as observações sobre o mesmo.
É uma realidade que sempre me deixou um pouco surpreendido.

Do William Wyler devo ter visto uma boa dúzia de filmes, mas não me recordo em particular desse tal Little Foxes. Não é um dos meus realizadores preferidos embora “The Best Years of Our Lives” e “The Westerner” sejam duas obras-primas absolutas.

Bom fim-de-semana!
Diogo Costa

Comentar post



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D